PRUDENSITE
Há pouco tempo, foi noticiado o sucessivo crescimento da taxa de emprego na região, o que indica um sinal positivo para o setor. Por outro lado, também está sendo anunciada pelo SEADE, uma pesquisa que apresenta uma drástica redução dos investimentos na região. Como está de fato o quadro industrial de nossa região neste momento?
FERNANDO
Inicialmente, é importante entender que nesta pesquisa não aparecem os investimentos através de recursos próprios. Só aparecem os tomados em bancos, como o BNDES, por exemplo. Tenho plena convicção, e os números nos levam a essa certeza, que o crescimento dos empregos nas indústrias da nossa região tem sido muito significativo. Nos últimos dois anos esta taxa tem se mantido, temos o melhor coeficiente nos últimos doze meses e o segundo melhor coeficiente no estado de São Paulo, estamos muito perto do primeiro coeficiente que é o de Sertãozinho.
Esse levantamento é feito pelo CIESP levando em conta o território de cada regional. Acabamos confrontando esses dados com os do IBGE, com os da Secretaria de Emprego e eles se encaixam perfeitamente. Outros indicadores da produção industrial dentro da nossa região também respondem favoravelmente.
De maneira geral, as pessoas acham que Prudente não tem muitas indústrias, mas nossa cidade e região têm uma característica bastante interessante e benéfica para população que é o fato dela não estar galgada num só segmento. Ao contrário, quem está galgado em um só segmento acaba sofrendo muito com as crises setoriais. Nós passamos dificuldades num momento ou em outro devido à crise econômica que abala todos os setores.
Se no setor A as coisas vão mal, o setor B compensa, então nós temos uma variação de setores em nossa região bem interessante. Temos por exemplo, o setor de couro que emprega muito, exporta muito, tem o setor de alimentos que também cresce bastante, exporta uma boa parte e gera muitos empregos (açúcar, biscoitas, carne, molhos...etc). Dentro de cada setor encontramos várias nuances relacionadas à matéria-prima e que, na maioria estão indo muito bem. Exemplo disso é o advento do segmento sucro-alcooleiro, que nós esperamos significar muito para nossa região, em breve.
PRUDENSITE
Um dos entraves para o desenvolvimento regional diz respeito às questões fundiárias. O senhor acredita que estamos próximos das soluções?
FERNANDO
Acredito que sim, mas isso não é questão que se resolva em um mês e sim de um ano ou um pouco mais, pois existem muitas coisas para se resolver ainda. Um grande trunfo que temos na região do Pontal do Paranapanema é o fato desta ser a última fronteira agrícola do estado de São Paulo em terras agriculturáveis.
Se for para cana, tudo bem. Se for para soja da mesma forma ou ainda, se for para outros cultivos que ajudarão no biodiesel também serão bem-vindos. Eu acredito que deveríamos desenvolver o negócio na região de forma consorciada entre pecuária e agricultura. Temos pecuária leiteira e de corte, essas duas têm que continuar, assim como a agricultura.
Temos uma produção de batata-doce que é recorde no Brasil e quem fabrica marrom glacê no país, vem buscar a matéria-prima aqui na região de Prudente.
Desse modo tenho um certo otimismo para o futuro da nossa região. Ela vai passar por um redespertar nos próximos anos. O que não podemos é desperdiçar essa oportunidade.
PRUDENSITE
Poderíamos atribuir a esses números mais positivos algum fator especifico como as ações dos governos federal e estadual ou isso é uma demonstração de competência dos empresários da nossa região?
FERNANDO
Um pouco é por vocação da maioria por empresários daqui, pois aquele milagre de trazer indústrias de outras regiões não existe. Podemos usar o exemplo da Cica que veio para cá montou uma bela indústria, com uma boa estrutura, muitos funcionários, e posteriormente, ficou dez anos parada. Um empresário de Prudente investiu na estrutura e deu andamento.
Também podemos dizer que o comando econômico do Brasil parte de São Paulo. A onda de crescimento inicia na capital depois segue para o ABC, Sorocaba, Campinas, São José dos Campos e isso vai se alargando, os empresários vão procurando novas oportunidades, novas fronteiras.
PRUDENSITE
Em sua opinião, o governo tem contribuído com a logística necessária?
FERNANDO
Contamos com uma malha viária muito boa, mas precisaria ser ampliada. O governo justificou a não duplicação pelo índice de circulação de veículos, porém esse índice foi levantado há dois anos. Acredito que algumas coisas o governo poderia fazer por antecipação, como a ativação da ferrovia para auxiliar no processo de logística. Definitivamente, o que precisa acabar é essa questão das guerras fiscais entre os estados, porque quem fica mais perto da fronteira dos estados são os que mais sofrem.
PRUDENSITE
A posição de Presidente Prudente nesse aspecto acaba sendo negativa?
FERNANDO
Isso nos prejudica um pouco, mas o que tem que haver é uma ação do governo estadual junto aos governos municipais de facilitação de infra-estrutura para que os empresários expandam seus negócios.
PRUDENSITE
Presidente Prudente possui o maior parque industrial da região, quais seus principais problemas?
FERNANDO
Temos distritos com algumas deficiências. No NIPP-1, localizado próximo à rodovia Raposo Tavares, há muitas empresas instaladas, porém há outras que não se instalaram e mesmo assim, têm propriedade provisória da área cedida. Tem um imbróglio jurídico aí no meio que tem ser vencido.
Numa ação em conjunto com a associação dos industriais do NIPP-1 tentamos com a Sabesp e a Prefeitura uma posição para que fosse realizada a coleta de esgoto doméstico do distrito. A parte de poluentes de cada indústria tem suas respectivas responsabilidades, mas a parte de esgoto doméstico tem que ser atendido pelo responsável pelo empreendimento imobiliário que, no caso é a Prefeitura. Como há farpas políticas entre a Sabesp e o governo municipal, a questão não evoluiu muito bem e não houve, até agora, nenhuma solução.
PRUDENSITE
Falta empreendedorismo por parte dos empresários da região?
FERNANDO
Nós temos muitos empreendedores, mas empreendedorismo é uma questão um pouco complicada para se tratar assim com simplicidade. Às vezes, o sujeito trabalha numa empresa que faz um artigo X e depois de trabalhar dez ou quinze anos ele sabe fazer o produto, sai da empresa e abre outra pequena empresa para fazer esse produto. A grande falha desse sistema de empreendedorismo é que o empresário não se prepara para gerir o negocio, então falta qualificação na administração do negócio. A maioria dos empresários sabe como desenvolver um produto, mas não sabe como administrar as outras situações que determinam o sucesso de um empreendimento. O Sebrae tem conseguido excelentes resultados para melhorar este quadro através de orientações.
PRUDENSITE
O CIESP tem algum projeto nessa área?
FERNANDO
O CIESP não tem projetos nessa área por que seu foco principal está voltado para solucionar os problemas pontuais de cada indústria, seja ela pequena, média ou grande. Cada regional da CIESP realiza cursos de qualificação em nível de gerência ou departamental com ênfase no treinamento dos funcionários de cada empresa.
PRUDENSITE
Em sua avaliação, como está o padrão de qualidade da indústria regional?
FERNANDO
Temos uma diversificação muito grande. Falando em selas, por exemplo, você corre o Brasil inteiro, e se procura qualidade, vem aqui em Presidente Prudente. Contamos com mais de dez seleiros, que exportam inclusive. Para se alcançar o nível de exportação, o padrão de qualidade tem que atender altos níveis de exigência. Boa parcela das nossas exportações vão para a Europa, um mercado muito exigente.
Na parte de alimentos também encontramos um padrão de muita qualidade. Veja a produção do Friboi de Presidente Epitácio, é 100% para exportação e os serviços são todos aprovados pela comunidade européia e pelos selos de qualidade. Na relação de produtos com alto nível de qualidade também podemos incluir com destaque, o setor de sementes.
PRUDENSITE
Há pouco tempo atrás, contabilizávamos algo em torno de 50 produtos com efetiva exportação aqui na região. Este número está correto?
FERNANDO
É verdade. Gira em torno disso mesmo e se você pegar a lista de produtos exportados você encontrará até jóias. Não apenas produtos artesanais, mas também produtos de alta tecnologia.
PRUDENSITE
O CIESP consegue fazer uma avaliação periódica da balança comercial da região?
FERNANDO
Hoje em dia não existe ninguém fazendo isso oficialmente. Quem faz é por pura curiosidade. Eu procuro as listas para decifrar coisas do tipo: Porque Adamantina exportou 80 milhões de reais. Eu vou lá para tentar decifrar e procurar uma resposta.
Na região como um todo, exportamos algo em torno de 350 milhões de dólares no ano passado, boa parte só a cidade de Presidente Prudente: cerca de 160 milhões de dólares. Em segundo lugar fica a cidade de Presidente Epitácio e em terceiro vem Adamantina. Nas outras cidades, por menor que sejam, existe sempre um empreendedor que exporta mesmo que em pequenas quantidades através do correio. E esses pequenos números também somam.
Em relação à importação, o percentual é bastante pequeno. Gira em torno de 70 milhões de dólares.
PRUDENSITE
Como o setor da região está vendo a internet enquanto ferramenta de trabalho?
FERNANDO
Esta ferramenta está cada vez mais importante, pois hoje em dia as empresas fazem e recebem pedidos via internet. É fácil mostrar os produtos para possíveis compradores e é muito importante para expansão dos negócios de cada empresa. A internet é uma grande facilitadora de transações bancárias e de comunicação também, então sem dúvida a internet é uma grande ferramenta para o auxílio e crescimento das empresas.
PRUDENSITE
Quais são as perspectivas para o setor da indústria aqui em nossa região?
FERNANDO
Eu diria que dentro de algumas diversificações, o que deve acontecer é o aproveitamento de matéria prima do mesmo setor. Por exemplo: o Friboi tem uma indústria de sabonetes que aproveita a gordura por eles extraída. No setor de frigorífico nós já tivemos aqui uma maior estrutura do que temos hoje, mas de uma certa forma, já retomamos mais de uma parte do espaço perdido e estamos caminhando para novas transformações como por exemplo o Frigorífico Independência de Presidente Venceslau (antigo Kaiowa). Acho que começamos a perceber uma integração maior entre os setores e uma antecipação de futuros lucros com bastante dinamismo.
PRUDENSITE
Fechando este balanço, o empresário industrial de Presidente Prudente deve ficar otimista com o que vem pela frente?
FERNANDO
Acredito que vale muito a pena investir em Prudente, e que o prudentino por nascimento ou o por adoção tem que acreditar em nossa região e deve investir por que temos uma perspectiva bastante interessante. E o empreendedor tem que acreditar naquilo que ele faz. “Temos que acreditar com criatividade e otimismo, pois é isso que nos move para frente!”